(mais para “At Last and Repetition”)
Por Leonardo “Ikari Léo” Mendes
Bleach é um dos casos mais curiosos de como pode oscilar a fama de um mangá. Lançado em 2002 na conceituada revista Shonen Jump, o título de Tite Kubo se tornou popular praticamente de forma meteórica, com uma temática de “deuses da morte” tratada de forma mais cool (a julgar pela estética usada pelo autor em suas capas de capítulos e volumes do mangá). Com isso, personagens carismáticos, e uma história de ação acima do padrão Jump (a primeira saga, Soul Society, lembrava em muito a famosa saga do Santuário de Cavaleiros do Zodíaco, na estrutura e na qualidade), o título se tornava um dos pilares da publicação japonesa, junto com Naruto e One Piece. Tudo se encaminhava para se tornar um clássico. No entanto, em seu derradeiro capítulo, lançado na semana passada, sua aceitação passou bem longe do capítulo final do concorrente ninja, publicado ano passado.
Afinal, o que deu errado com o Bleach?
(Lembra dessa época? Bleach era legal pra caramba lá, né? Só que, hoje…)
Para quem acompanhou a obra até o final (um joinha pra você, porque com certeza não foi fácil), existem várias respostas pra essa pergunta, mas a principal é até óbvia: Tite Kubo e a Shonen Jump não souberam quando terminar o mangá. Ponto.
Já havia sinais de desgaste do mangá no decorrer de sua quarta saga, Hueco Mundo (“O Ichigo é humano, shinigami E hollow?? WTF??”, isso só pra citar um exemplo), e o ideal seria que a história terminasse ali, num suposto auge. Mas autor e editora não viram o momento e, assim como ocorreu como Dragon Ball e Death Note, títulos da mesma revista, decidiram continuar o mangá pra ver se o autor conseguir extrair alguma epifania, e se o título ainda rendia uns trocados. Ninguém sabe exatamente quem teve a maior parcela de culpa, mas é fato, depois disso, o título só foi ladeira abaixo.
Os capítulos posteriores de Bleach sofreram com vários problemas. Na saga Fullbring, um protagonista sem poderes (e fraco, não apenas no sentido literal), uma certa displicência na arte e a inserção de vários novos personagens sem necessidade (e carisma) deixaram o gosto de doce enjoativo. Quando foi finalizada, foi anunciado que Bleach teria a sua saga final, e aí muita gente se empolgou, já que, além dos gritos de “Finalmente!”, os vilões seriam os Quincies, os maiores inimigos mortais dos shinigamis. Só que… isso ocorreu em 2012, 4 anos atrás, né?
Não deu outra: Tite Kubo fez uma saga final arrastadíssima, e repetindo muito de seus erros anteriores, em vez de corrigi-los. Surgiu um exército de novos personagens, muitos deles bem genéricos, e dar a devida atenção ao elenco principal parecia não ser mais prioridade ao autor. Entre boas novidades (como a Guarda Real shinigami) e outras horríveis (o Soul King, que diabos fizeram com a Yachiru, etc.), Bleach conseguiu fazer com que muitos desse um grito de “BASTA, CANSEI”. Eu incluso.
(imagem: https://i.redd.it/ooedrzhg1u8x.jpg – melhor colocar como Thumbnail pro leitor clicar, porque é uma imagem bem grande)
(Melhor resumo possível da montanha russa que foi essa saga dos Quincies a um clique. Pode me agradecer depois.)
Aí vamos à cereja do bolo, o capítulo final de Bleach, que eu li mesmo assim (e acabei lendo o restante da saga por tabela). Aliás, o ideal é dizer que o final é composto desse último capítulo e do anterior (677: A Perfect End – que de perfeito não tem nada), pois eles se completam.
(“Shonen Jump Kids” – Novo anime anunciado da Toei – #sqn – ainda)
Basicamente, o que ocorre nesses dois capítulos: a Soul Society está em tempos de paz 10 anos após a vitória de Ichigo sobre Yhwach, onde está tudo bem e tudo bom com os personagens que sobreviveram, e agora, Rukia virou a chefe do Gotei 13, basicamente a mandachuva de lá. Até aí, tudo bem, apesar de que este último detalhe é a única coisa de fato interessante neste trecho, pois é precedido de muita lenga-lenga. Isso, seguido por uma possível volta do poder de Yhwach em certo lugar da Soul Society, que ninguém faz idéia de como ou por que apareceu, e que em tese seria uma baita emergência.
Porém, no último capítulo, o que temos? Rukia, que deveria ser a primeira pessoa a cuidar da situação, foi tomar um cafezinho com Ichigo e cia, trazendo o marido Renji, e supostamente a filha, a tiracolo. Sendo que: 1) a filha deles some e ela tá nem aí; 2) a Soul Society está com um problemão e ela nem foi avisada e, claro, não está nem aí.
Coerência? Tite Kubo não trabalha com isso. Que o diga o baita Deus Ex Machina que foi o que fez o Ichigo conseguir derrotar um inimigo supremo que tem o poder de alterar o futuro.
Em seguida, é mostrado qual destino foi dado aos personagens principais: Chad virou lutador de boxe – e o mais famoso entre eles. Ishida se tornou médico, como esperado. E, assim como Rukia e Renji, Ichigo e Orihime se casaram e tiveram um filho. Ambos os filhos, claro, misturam as características dos pais, e seguiram a carreira de shinigami. FIM.
O último capítulo pareceu bem familiar? Pois é. Se você leu o final do mangá de Naruto recentemente, irá perceber que Bleach fez quase um copy e paste, bem na cara de pau. Será esse um padrão agora de finais das obras da Shonen Jump? É quase um último capítulo de novela da Globo, só faltam as cenas de casamento mesmo.
Ah, nesse meio tempo, Kazui, o filho de Ichigo, sabe-se lá como e do nada, acaba com o último vestígio do poder de Yhwach sem querer, fazendo toda aquela sensação de perigo na Soul Society ir pro ralo em instantes. Seguido por um discurso sobre mortalidade e coragem feito por Aizen (ainda o melhor vilão de Bleach, disparado), que foi o único momento de destaque positivo nesse capítulo final. Mas ainda foi pouco.
Bleach chegou à sua conclusão e o choro é livre para alguns, mas para muitos outros, como no meu caso, é libertador. Deixando muitas perguntas pelo ar (duvida? Só nesse vídeo tem 50 delas), e junto do estigma de mediocridade adquirido ao longo do tempo, fica a reflexão de como poderia ter sido uma obra melhor, se Tite Kubo e seus editores tivessem tido mais cuidado ao longo do tempo ou se tivessem determinado terminar o mangá num momento mais apropriado. A maior certeza desse final, infelizmente, é a sensação de “Aleluia, finalmente acabou”.
Nota: 4/10.
*Leonardo “Ikari Léo” Mendes é novato no MinutaCast, embora já tenha escrito algumas coisas por aí em outros sites uns anos atrás. E também escreve algumas besteiras no seu twitter: @ikari_leo.